A oração do Pai em nós

Texto: Mateus 6: 5 – 13

Nos tempos de Jesus, havia algumas correntes rabínicas. Duas delas eram: Shamai e Hilel. Estes eram dois rabinos importantes que orientavam o povo. Os dois rabinos citados viveram antes de Jesus, provavelmente no período dos macabeus ou período interbíblico, quando o farisaísmo se tornou um forte segmento em Israel. Na passagem citada, o povo tinha um pedido: que Jesus lhes ensinasse a Lei de Moisés. Quando os discípulos pedem a Jesus a orientação de como orar, estavam pedindo que ele ensinasse como chegar à presença de Deus, por meio da Lei de Moisés, porque Jesus era um mestre dessa Lei.

Como Shamai e Hilel, Jesus também ensinava a Lei de Moisés. Deus, antes era conhecido como o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Não se podia, naquela época, falar o nome de Deus. As pessoas não O conheciam, porém sabiam dizer que ele era o Deus dos seus pais. As pessoas seguiam a Jesus para saber a cerca da Lei de Moisés.

Hoje, falaremos dessa oração, mas se referindo a ela como uma oração para dentro e não para fora. Jesus está ensinando seus discípulos a olhar para dentro, olhar para si mesmo. A oração dos hipócritas era um tipo de oração que agradecia a Deus por não tê-los criado: samaritano, mulher ou cachorro. A oração do Pai Nosso tem a ver com a horizontalidade dos nossos vínculos. Jesus estava analisando o ser humano.

A oração começa dizendo que o Pai é “nosso”. A expectativa de quem vai falar com Deus não poder hipócrita ou egoísta. Nosso Deus e nosso pai é como inicia a oração, relacionando-se com todos os níveis do homem. É uma oração coletiva e não individual: pai nosso, pão nosso, nossos pecados. O tempo todo Jesus ensina a coletividade.

O homem sempre invoca a Deus numa perspectiva exclusivista. Jesus ensina o contrário. Ele ensina a buscar para todos, não apenas para si mesmo. A perspectiva do todo é faltosa em cada ser humano. “O importante é que minha oração me favoreça, acima de tudo”. Contudo, a oração ensinada por Jesus fala do contrário. Ensina sobre o coletivo. Não é o forte do homem invocar a solidariedade de Deus para todos. Dentro de cada um existe a individualidade.

Quem é você? Quem são as pessoas? Quem sou eu sem você? Quem é você sem mim? Ninguém nasceu sem ajuda de outra pessoa. Foi preciso duas pessoas para gerar alguém. Nascemos de uma coletividade, de uma família. Ao olharmos para o universo que nos rodeia, qual sua contribuição para a construção dele? Será que o homem construiu alguma coisa neste mundo? Deus teria pedido opinião ou autorização ao homem para criar algo? Na verdade n-ã-o. A única coisa que fazemos nesse mundo é destruí-lo. Também somos criação de Deus, somos possibilidades d’Ele neste mundo.

Mesmo quando desconhecia a obra de Deus em sua vida, quando ainda era um alienado, ainda sim o amor de Deus era sobre você. Mesmo sem perceber ou merecer tal amor. A natureza humana não é de coletividade. Ele não se alegra com a misericórdia de Deus. De outro ponto de vista, podemos afirmar que o homem é a antítese do evangelho. O homem é uma pedra de tropeço, é uma porta fechada que impede o outro de se aproximar mais de Deus. A partir das minhas palavras e ações posso desaprovar os ensinamentos de Jesus.

Tudo o que temos vem de Deus. O que temos de bom vem d’Ele porque não podemos criar nada. (Tiago 1: 17). A sublimidade não vem do porão da minha alma, vem do alto, do Pai das luzes. A verdadeira solidariedade vem de Deus para o homem e deste para outro homem. Estou fazendo o bem a mim mesmo, antes de fazer ao próximo.

A Escritura diz que ninguém busca a Deus. Jesus foi o único que nasceu para buscá-Lo e me levar á presença de Deus. Apenas queremos Deus se o Espírito Santo estiver dentro de nós. Quem não tem Jesus na sua vida não deseja a Deus. O homem vai tentar, o tempo todo, sair da presença de Deus. Deus conhece a todos. Ele sabe diferenciar o joio do trigo.

Quem inventou o Reino de Deus? Algum filósofo como Platão, Aristóteles? Sartre chegou a criar um outro reino, o do vômito. Não fui quem buscou o reino de Deus, mas Ele me buscou primeiro. Você conhece a vontade de Deus? Parece que estamos falando de algo que Deus deseja para si próprio. Porém, a vontade de Deus é para o homem, em nosso favor. A vontade dele é que você alcance êxito, que seja salvo do inferno e seja verdadeiramente livre do império das trevas.

O pão nosso é para “nós”. O Senhor reclama com o profeta Zacarias que Ele não pediu sacrifícios porque tudo na Terra pertence a ele, inclusive os animais. O pão que vem de Deus é para compartilharmos com os outros.

O perdão, por sua vez pacifica a alma. A ausência de perdão não provoca nada em Deus, mas no próprio homem. Quem não perdoa é o verdadeiro atingido pela falta de perdão. Deus não terá sua alma presa, mas o que recusou o perdão sim. Quando recebemos a graça de Deus e não repassamos ao próximo, estamos iniciando em nós um processo de abertura às trevas, nos tornando cada vez mais parecidos com demônios. O que você receber de Deus deve ser repassado para os outros.

(Leia Salmos 116: 12-13) – Como retribuir a solidariedade de Deus, o que Ele tem feito por você? Você deve abrir sua boca e falar de seus feitos. Seja como um cálice pronto para receber Deus e para derramar mais d’Ele. Não lute pelas suas razões. Coloque fim nas disputas na Terra, este é o reino de Deus. A graça de Deus é o bastante para nós. (Leia 2 Co. 12:9). A misericórdia do Senhor é suficiente. Para ser solidário não devo deixar o próximo na exclusão.

A vontade de Deus é que ninguém seja excluído. Quando eu dou de comer, beber ou visto um necessitado, estou fazendo isso ao próprio Deus. Quando eu vejo a necessidade do outro e sou solidário, é a solidariedade de Deus em mim que está agindo naquele momento. O pão que recebo de Deus é o “nosso pão” que é repartido entre todos. A casa de Deus é aquela que abriga os desabrigados.

Hoje, o mundo nos obriga a nos proteger das coisas boas, ou seja, das pessoas. A bondade para com Deus é feita ao próximo. Se você quer dar uma festa para Deus, faça um banquete para os pobres e miseráveis. Que Reino de Deus seria esse que exclui pessoas? Amar a Deus na Terra é perdoar as pessoas. Deus vai exigir mais daqueles que tem mais revelação d’Ele, ou seja, de cada cristão.

(Leia I Tm. 1: 15) – Paulo se considera o pior dos pecadores. Às vezes, pensamos que um ladrão ou traficante é a pior das pessoas. O diabo não suporta as pessoas que fazem o bem, que perdoam e compartilham solidariedade. As pessoas que fazem esse tipo de oração, feita para dentro de si mesmo, não podem ser tocadas pelo inimigo (Leia I Jo. 5: 19). Quem são esses que vivem essa oração e que são tocadas pelos demônios? Ninguém. O inferno não pode resistir a esse tipo de pessoas.

A oração do Pai Nosso não é para ser repetida, mas para ser vivida, diariamente. Chegou o tempo da oração do Pai em nós. De Deus em nós. Essa é a verdadeira libertação e ensino. Onde existem crentes verdadeiros, os demônios não aguentam estar neste ambiente de amor, de solidariedade, de santidade onde Deus está dentro de cada um. Podemos fazer algo em favor do próximo. Saia da paralisia e faça algo.

Quando você se permitir viver o Evangelho, você viverá uma vida de entrega, de doação, vivendo o que Jesus ensina: amor ao próximo.

Ap. Anselmo Valadão

16.01.2011

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