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O homem do lixo

A mulher senta-se pesadamente no banco e coloca uma sacola cheia de coisas sem valor entre os pés. Apoiando os cotovelos nos joelhos e o rosto nas mãos, ela observa a calçada. Em seu corpo, tudo dói. Costas, pernas, pescoço. Seus ombros estão rijos e suas mãos, esfoladas. Tudo por causa da sacola.

Oh! se ao menos pudesse se livrar desse lixo.

Nuvens compactas constroem um céu cinzento, cinzento com mil sofrimentos. Prédios sujos de fuligem lançam longas sombras que escurecem as calçadas e as pessoas que nelas caminham. A garoa resfria o ar e enlameia a enxurrada que corre pelas sarjetas. A mulher envolve-se em seu casaco. Um carro que passa encharca a sacola e espirra água em seu jeans. Ela não se move. Está cansada demais.

Suas lembranças de uma vida sem sacolas são indistintas. Quando era criança, talvez ? Suas costas eram mais retas, seu andar mais rápido… ou isso é um sonho ? Ela não tem certeza.

Chega um segundo homem que carrega uma sacola cheia e pesada de lixo, e a coloca em seus ombros, xingando o peso.

Nenhum deles diz uma palavra. Ela nem sabe se ele percebeu sua presença. Seu rosto parece jovem, mais jovem que suas costas encurvadas. Num momento o homem desaparece. E o olhar da mulher torna a fixar-se no chão. Ela nunca olha para o seu lixo. Mas em outros tempos sim. Porém o que via a repugnava, por isso agora sempre deixa a sacola fechada.

Que mais pode fazer? Dar de presente a alguém? Todos têm a sua própria sacola de sofrimentos.

Agora aparece uma jovem mãe. Com uma das mãos ela leva uma criança, com a outra carrega seu fardo, sacolejando pesadamente. E também um velho com a face sulcada de rugas. Sua sacola de lixo é tão comprida que balança sobre suas pernas quando caminha. Ele olha para a mulher e tenta sorrir. Qual peso estaria carregando? Ela imagina ao vê-lo passar.

“Tristeza.”

Ela se vira pra ver quem falou. Ao seu lado, no banco, um homem havia se assentado. Alto, com feições angulares e brilhantes, e os olhos bondosos. Seu jeans também está manchado de lama. Todavia, seus ombros, ao contrário, são retos. Ele veste uma camiseta e um boné. Ela olha em volta, mas não vê se Ele também carrega uma sacola de lixo.

Ele observa o velho que se afasta e explica: “Quando era um jovem pai, ele trabalhava durante muitas horas e negligenciava a família. Seus filhos não o amam. Sua sacola está cheia, cheia de tristeza e remorso”.

Ela na responde. Por isso, Ele continua.

“E a sua ?”

“A minha ?”, ela pergunta.

“Vergonha”, o homem diz, cheio de pena.

Ainda assim ela se cala, mas também não se afasta.

“Muitas horas nos braços errados. No ano passado. Na noite passada… vergonha.”

Seu corpo se endurece, como se fosse de aço contra o escárnio que havia aprendido a esperar. Como se precisasse sentir mais vergonha. Faça-o se calar. Mas como? Ela aguarda o seu julgamento. No entanto, isso nunca acontece. Sua voz é doce e sua pergunta é sincera: “Não quer me dar o seu lixo?”

A mulher inclina a cabeça para trás. O que Ele está dizendo?

“Dê seu lixo para mim. Amanhã. Lá no lixão. Não deixe de trazê-lo.”

Ele limpa um pouco de chuva da face da mulher, esfrega o dedo e se levanta. “Sexta-feira. No lixão.”

Ela continua sentada, muito tempo depois que Ele partiu, recordando a cena, tocando a face. Sua voz ainda persiste, seu convite paira no ar. Ela tenta esquecer suas palavras, mas não consegue. Como esse homem poderia saber tudo aquilo a seu respeito? E, como podia saber, e continuar sendo tão gentil?

O sono daquela noite lhe trouxe sonhos de verão.

Entretanto, quando acorda, vê que o céu está escuro, as nuvens cresceram e as ruas se cobriram de sombra. Ao pé da cama, permanece sua sacola de lixo. Coloca-a sobre seu ombro, deixa o apartamento e desce as escadas em direção à rua, ainda escorregadia de neve derretida.

É sexta-feira.

Durante algum tempo ela fica parada e pensativa. Imaginando primeiro o que Ele queria dizer e, depois, se realmente tinha essa intenção. Ela suspira. Com um fio de esperança que quase ofusca seu desânimo, ela caminha em direção à periferia da cidade.

Outras pessoas também estão caminhando na mesma direção. O homem ao seu lado cheira a álcool. Ele deve ter dormido muitas noites com a mesma roupa. Uma adolescente caminha alguns passos à sua frente. A mulher da vergonha corre para alcançá-la. A jovem se oferece para responder antes que qualquer pergunta tenha sido feita:

“Ódio. Ódio do meu pai. Ódio de minha mãe. Estou cansada de sentir ódio. Ele disse que iria tirar esse ódio de mim.” E mostra a sacola. “Vou levá-la para Ele.”

A mulher acena com a cabeça e as duas caminham lado a lado.

O local está coberto de lixo — papéis, vassouras quebradas, camas velhas e carros enferrujados. Ao chegarem à colina, a fila até o topo é muita comprida. Centenas de pessoas caminham à frente das duas mulheres e todas esperam em silêncio, alarmadas com o que ouvem — um grito, um bramido cheio de dor que flutua no ar por momentos e apenas se interrompe com um gemido. Depois, o grito volta novamente. O dEle.

Ao se aproximarem, passam a entender a razão. Ele se ajoelhou perante cada um, aponta para a sacola, faz um pedido e depois uma oração. “Posso pegar a sacola? Tomara que você nunca mais volte a carregá-la.” Em seguida, o homem curva a cabeça, levanta a sacola e derruba seu conteúdo sobre si mesmo.

O egoísmo do glutão, a amargura do irado, a neurose de posse do inseguro. Como se tivesse mentido, enganado ou ofendido o Criador, Ele passa a sentir o mesmo que as outras pessoas sentiam.

Quando chega a sua vez, a mulher pára um momento. Ela hesita. Os olhos do homem a convidam a ir adiante. Ele estende a mão e se apodera de seu lixo. “Você não pode viver com isso.” “Você não foi feita para isso.” Com a cabeça baixa, Ele derruba toda a vergonha sobre seus próprios ombros. Em seguida, olhando para o céu, com olhos inundados de lágrimas, Ele grita: “Me perdoe”.

“Mas você não fez nada”, ela exclama.

No entanto, Ele está soluçando como ela havia soluçado em seu travesseiro uma centena de noites. Foi então que entendeu que o pranto desse homem representa o seu próprio pranto. Sua vergonha passou a ser dEle.

Com um dedo ela toca a sua face e, no primeiro passo em uma longa noite, não tem mais nenhum lixo para carregar.

Junto aos outros ela se coloca aos pés da colina e observa enquanto o homem é enterrado sob um monte de tristezas. Durante algum tempo Ele ainda geme. Depois … nada. Somente o silêncio.

As pessoas se acomodam entre carros quebrados, papéis e fogões descartados e imaginam quem seria esse homem e o que acabou de fazer.

Como carpideiras numa vigília, elas se demoram. Algumas contam histórias, outras se calam. Todas lançam olhares furtivos ao lixão. Parece muito estranho ficar andando naquela montanha de entulhos. Contudo, parece ainda mais estranho pensar em ir embora.

Portanto, elas permanecem ali. Atravessam a noite até o amanhecer. A escuridão vem novamente. Uma corrente de amizade se estabelece entre elas, uma amizade que se formou através do homem do lixo. Algumas adormecem, outras acendem uma fogueira nos tambores de metal e falam sobre uma repentina abundância de estrelas no céu daquela noite.

Pela madrugada, todos dormem. E quase deixam escapar o momento. É a jovem que vê primeiro. A jovem que fora cheia de ódio. A princípio, não acreditava no que vê, mas quando repara melhor, logo compreende.

As palavras dela são suaves e não são dirigidas a ninguém em particular… “Ele está de pé.”

Depois, ela grita bem alto para a sua amiga: “Ele está de pé”.

E então, para todas as outras pessoas: “Ele está de pé!”

Ela se volta; todos se voltam. E todos vêem sua silhueta projetada sobre um sol dourado.

De pé. Sim, é verdade.


O homem do lixo – Extraído do livro: O Salvador mora ao lado, de Max Lucado

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